RASTROS DO AINDA-NÃO - DERRIDA, BLOCH E A MÚSICA DA ESCRITURA




Ricardo Timm de Souza

O real contém em seu ser a possibilidade de um ser como utopia, que certamente ainda não existe, porém existe a pré-percepção fundada e fundante dele e de seu conceito utópico-fundamental (...).
Ernst BLOCH[1]

(...) se isso que vem, em nossa direção, se isso deve constituir um acontecimento, não devemos vê-lo vir. Um acontecimento é o que vem; a vinda do outro como acontecimento só é um acontecimento digno desse nome, isto é, um acontecimento disruptivo, inaugural, singular, na medida em que precisamente não o vemos vir. Um acontecimento que antecipamos, que vemos vir, que pré-vemos, não é um acontecimento: em todo caso, é um acontecimento cuja acontecimentalidade é neutralizada, precisamente, amortecida, detida pela antecipação. (...)
Jacques DERRIDA[2]

I – A questão

            Se a experiência, o acontecimento como tal não pode ser antecipado, se sua condição própria de “acontecimento” é a não-previsibilidade do acontecer, a não-possibilidade de uma tal previsibilidade; se o acontecimento é uma dimensão disruptiva de toda tessitura mental do pré-conhecido, do pré-sabido; se o acontecer do acontecimento significa a novidade absoluta, sempre a instauração e nunca a restauração, sempre a inevitabilidade do que chega quando chega; se a questão é temporal; se nenhuma experiência antecipa a vinda do Outro; se o Outro, que é o próprio Tempo que acontece[3], surge desde além do horizonte e da idéia de horizonte; se – em síntese – “um acontecimento é ... na medida em que precisamente não o vemos vir” – então, como podemos conceber a principal categoria filosófica blochiana “noch-nicht” – “ainda-não” – como antecipação (ainda) inexistente de uma existência possível (e de fato o fazemos, pois se não tivéssemos idéia que algo irrompe quando irrompe, a irrupção do tempo e do Outro seriam o buraco negro da existência e da vida)?[4]


II – A tensão em seus termos

a)      Assim, por um lado, temos que

(...) a experiência do acontecimento é uma experiência passiva, rumo à qual, e eu diria contra a qual, acontece o que não se vê vir, e que é de saída totalmente imprevisível, não pode ser predito; é próprio do conceito de acontecimento que ele venha sobre nós de maneira absolutamente surpreendente (...)[5]

            De fato, ou se dá a detenção do fluxo, do trafegar ativo que a ex-periência, Experimentum, Er-fahrung, significa, para que ela, passiva, receptiva, possa ser surpreendida pelo acontecimento, possa recebe-lo ou acolhe-lo, pela sua imprevisibilidade, ou a experiência do acontecimento seria uma mera caricatura – hipócrita – de si mesma, de um estilo de experiência totalizante para a qual acontecimentos não passam, no máximo, de acidentes de um percurso já pré-clarificado, presente in toto, pro-jetado, perfectum – ou seja, completo, concluído. Hipócrita porque pretende não ser o que é, ou ainda não ser o que já é; tudo está escrito, basta, numa paródia de temporalidade, des-vestir as letras do já-escrito para que a ilusão de alguma coisa nova contente as consciências. Esse estilo de hipocrisia é completamente dominante no universo mental no qual o medo reina e onde a mera menção ao novum já tem potencial de extrema agonia – tempos como os nossos. Não há assim, em nome da sinceridade no trato com o real, como prescindir do que chega apesar de tudo, do que chega a uma experiência despossuída de sua tentação de opacidade e completação; negar isso significa negar o tempo, a temporalidade própria que a tudo sustenta, ou seja, negar a vida. 
            Ainda,

(...) o acontecimento sempre corre o risco de ser em certa medida neutralizado: vemos vir as coisas desde o fundo do horizonte sobre cujo fundo vemos vir alguma coisa, nada vem, nada vem que mereça o nome de acontecimento; o que vem na horizontal, isto é, o que nos faz face e vem em nossa direção avançando ali onde o vemos vir, isso não acontece. Isso não acontece no sentido forte e estrito do advento do que vem, seja alguma coisa ou alguém, o que ou quem, o que ou quem em “isto vem”. Não devemos vê-lo vir, e, portanto, o acontecimento não tem horizontes; só há acontecimento ali onde não há horizontes.[6]

            Horizontalidade é simetria. Compreender a assimetria fundamental do Outro que chega é imprescindível para que se perceba a que ponto o acontecimento ou é súbito, ou não é. Essa é a grande surpresa cognitiva, a completa subversão fenomenológica – como diria Levinas, numa paráfrase livre, o outro não nos chega desde um horizonte de sentido, ele é o próprio sentido de si mesmo (por isso, aliás, se fala, no que concerne à obra de Levinas, por exemplo, de metafenomenologia, e não apenas de fenomenologia). A um mundo que pretende pré-organizar a realidade in toto via logos, que intende re-presentar o presente da realidade nos esquadros racionais prévios (reduzindo-a ao presente da representação), o acontecimento significa a falência da pré-organização ou, mais precisamente, a falência da representação. Dá-se algo de novo sob o sol: acontece o real, vem o outro, o tempo existe. O logos se constituiu ao longo da história do pensamento e não apenas dela, essencialmente, como processo cultural de horizontalização dos acontecimentos; se isso é válido e importante para a especificidade da compreensão de certas regiões específicas do real, sua identificação com a racionalidade tout court é não apenas imprópria, mas destrutiva no que concerne àquela racionalidade que se instaura na situação de choque do já existente com o que advém, chega, se expõe, se desnuda ante o que ainda não o acolhe. Porque o que advém, o que chega, chega de todas as partes, menos de onde se espera, ou seja, da horizontalidade do horizonte:

O acontecimento, se houver um e for puro e digno desse nome, não vem diante de nós, ele vem verticalmente: pode vir de cima, do lado, por trás, por baixo, ali onde os olhos não têm alcance, justamente, onde eles não têm alcance antecipatório ou preensivo ou apreensivo. O fato de que um acontecimento digno desse nome venha do outro, de trás ou de cima, pode abrir os espaços da teologia (o Altíssimo, a Revelação que nos vem do alto), mas também do inconsciente (isso vem de trás, de baixo ou simplesmente do outro).[7]


b)      Porém, por outro lado, convém notar que

(...)todo ser humano, na medida em que almeja, vive do futuro: o que passou vem só mais tarde, e o presente autêntico praticamente ainda não está aí. O futuro contém o temido ou esperado e, estando de acordo com a intenção humana, portanto sem malogro, contém somente o esperado... A função e o conteúdo da esperança são incessantemente experimentados (...)[8]

            A incidência da linguagem no instante inesperado do acontecimento que ainda não veio também é, e não pode deixar de ser, index de uma estranha, paradoxal confiança no improvável ou no impossível. Nada oferece motivos para uma tal confiança, ou – como vimos acima – o acontecimento real não poderia acontecer; porém, o não acontecer da idéia de acontecimento, esse não-acontecer se retira quando o acontecimento chega. Vive-se de nada senão do futuro; é o futuro que nos mantém, ainda, aqui e agora: “o que passou vem só mais tarde”. O futuro não é vazio, ele contém algo, contém o esperado. A espera, a esperança ativa, alimenta a alma, apazigua o horror terminativo do aqui e agora. Sabe-se o que ainda não se sabe, “a função e o conteúdo da esperança são incessantemente experimentados”. Conhecemos o conteúdo da esperança sem conhece-lo – ou ela não poderia apresentar-se, a cada momento, como – exatamente – esperança. O pensamento, e o agir sem o qual o pensamento não é propriamente, tem não só uma direção temporal, mas um sentido real: “O ser que condiciona a consciência, assim como a consciência que trabalha o ser, compreendem-se em última instância somente a partir de onde e para onde tendem[9]. O presente é uma tosca figura de linguagem, que testemunha muito impropriamente o passado que escapa ao conceito em sua fuga na direção do futuro. O tempo existe. E, por outro lado, o futuro não nos espera, ele chega até nós, e chega como relampejo, acontecimento temporal, próprio, definidor e definitivo, alimentado pelo que ecoa do passado – ainda que o que ecoa do passado seja nada mais, benjaminianamente, que o “eco das vozes que já emudeceram”[10]. “O que é nosso se esvai, não comparece”[11], ou seja: ainda não comparece, sempre ainda não, “ainda-não-manifestado no mundo”.

Desse modo, as divisões rígidas entre futuro e passado desabam por si mesmas: o futuro que ainda não veio a ser torna-se visível no passado; o passado vingado, herdado, mediado e plenificado torna-se visível no futuro.[12]

            Movimento do real chamado tempo, que dilui as instâncias organizativas de representações “passadas”, “presentes” e “futuras” no fluxo em que apenas o que se pode experimentar é o futuro que acomete, que ad-vém, que chega, espelhado nos restos, ecos, traços do passado que sobrevive a si mesmo e, na improvável combinação pós-representacional, ressignifica a própria idéia de acontecimento que habita algo, que se aninha no coração da esperança ativa, na antecipação do factum, na realidade das utopias concretas desde as “consciências antecipadoras”; possibilidade ou negação dos acontecimentos impossíveis de prever sob o risco de desnatura-los, transformando-os em caricaturas de si mesmos?


III – A esperança

Pensar significa transpor.
E. BLOCH[13]

            O estranho dilema está, portanto, posto. Se, por um lado, somente é acontecimento o que nunca aconteceu antes, mesmo que apenas nos labirintos da mais complexa racionalidade, por outro lado a “consciência antecipadora” que explode nos sonhos diurnos não é um capricho racional, mas a possibilidade de que se reconheça o acontecimento que acontece como tal ou ainda mais, ou derivadamente, possibilidade de que o acontecimento aconteça.
            Encontram-se em algum lugar hipotético-utópico esses polos opostos de um estilo dialético extremo, que chega a lembrar as oposições de uma exegese talmúdica?
            A categoria “esperança” não é uma categoria qualquer. Nenhuma pessoa possui, a rigor, esperança; esperança é o que a possui. Sem esperança, ninguém segue respirando ainda uma vez – pode não compreender a radicalidade disso cognitivamente, mas seu corpo, sua espessura orgânica, sua espessura ontológica compreende muito bem. Esperança é o tempo que resta. A esperança é ancestral; vem de um passado “tão arcaico que nunca foi presente”, é assincrônica e ininteligível enquanto uma dispersão de momentos, ainda que tais momentos estejam postados ao longo de uma pretensa linha racional. Esperança é o que faz que o ainda-não ainda não tenha chegado e desaparecido nesse chegar. Esperança é, de certo modo uma estranha, incômoda, recorrente e vital pré-presença do (ainda-não) Outro. Esperança é desejo.

A esperança sabedora e concreta, portanto, é a que irrompe subjetivamente com mais força contra o medo, a que objetivamente leva com mais habilidade à interrupção causal dos recursos do medo, junto com a insatisfação manifesta que faz parte da esperança, porque ambas brotam do não à carência... (...) (Esperança se apresenta como [R.T.S.]) O desiderium, única qualidade sincera de todos os seres humanos (...).[14]

            Esperar propriamente é “esperar para além do dia que está aí”[15]. Esperança é desejo. Em sentido psicanalítico, em sentido filosófico, é o que move. Desejo é essencialmente mistério (Marcel), incompletude fundamental, tempo que resta e que vem, tempo que ainda não chega, verbo incompleto. Fragmentos do que já foi fulgurando na imponderabilidade do indeterminável. São os rastros, Spuren, traces, traços do ainda-não que ainda não é, incrustrados inelutavelmente em algum corpo de realidade, sonhados diurnamente, nunca previstos, sempre reais; ecos insinuantes, estranhos quistos do tempo que já passou e que refulge na mais estranhas das auroras, aquela indescritível. De outro modo dito: esperança é desejo de justiça, outro nome, o mais de um, da “loucura pela justiça”, a “indesconstrutível justiça, a condição indesconstrutível de toda desconstrução”[16].


IV – Coda – rastros do ainda-não, ou: a música da escritura

O rastro é a própria experiência, em toda parte onde nada nela se resume ao presente vivo onde cada presente vivo é estruturado como presente por meio da remissão ao outro ou à outra coisa, como rastro de alguma coisa outra, como remissão-a. Desse ponto de vista, não há limite, tudo é rastro.[17]

            “...não há limite, tudo é rastro”. A louca esperança dos sonhos diurnos encontrou a loucura pela justiça que somos nós. Estranha experiência, muito para além de conceitos como atividade ou passividade – outra experiência, outra viagem. Reconhecem-se sem se reconhecerem. Desconhecem-se – mas se encontram, e por isso existem –, vibram em seus rastros, não a vibração da inércia em direção ao fim, do decaimento físico, mas a vibração do ritmo – não do compasso – que nasce do mais além do constituído, do estabelecido, do positivo, do já-aqui. Momento inaugural. Rastros são tudo, “tudo é rastro” – tudo é rastro do ainda-não, ou seja, vida. O sentido orgânico da música que nos traz sempre o ainda-não já numa certa presença que é sua própria fuga, seu ponto de fuga, o ponto re-iterado de inflexão da racionalidade, que se nega quando é, pela abertura ao tempo que sinaliza e pela ansiedade frustrada do encadeamento que, escriturado na sua ciência, transforma-se na escritura corrente de seu fluxo visceralmente avesso à mania geométrica. A música da escritura ressalta na escritura seu todo temporal não-totalitário e na música a possibilidade de uma maior percepção de sua substância de densidade infinita e espessura zero, vulcanismo em fuga, pois toda música é, de certo modo, uma Fuga. À “Todesfugue” celaniana, a Lebensfugue.

Porto Alegre, setembro de 2016.



Referências


BLOCH, E. (1988) Geist de Utopie, Frankfurt: Suhrkamp.
_______, (2005) O princípio esperança, Rio de Janeiro: Contraponto/Eduerj, (3 Volumes).
_______, (1975) Experimentum mundi, Frankfurt a. M.: Suhrkamp.
_______, (1985b) Spuren. Frankfurt a. M.: Suhrkamp.
BOURETZ, Pierre. (2012) Testemunhas do futuro – filosofia e messianismo, São Paulo: Perspectiva.
DERRIDA, J., (2012) Pensar em não ver – escritos sobre as artes do visível 1979-2004, Florianópolis: Editora UFSC.
_______, (1994) Espectros de Marx, Rio de Janeiro: Relume-Dumará.
ROSENZWEIG, Franz. (1989) El nuevo pensamiento, Madrid: Visor.
______, (1996) Der Stern der Erlösung, Frankfurt am Main: Suhrkamp.
______, (1992) Das Büchlein des gesunden und kranken Menschenverstandes, Frankfurt am Main: Suhrkamp.
SOUZA, Ricardo Timm de. (2004) Razões plurais – itinerários da racionalidade ética no século XX: Adorno, Bergson, Derrida, Levinas, Rosenzweig, Porto Alegre: EDIPUCRS.
______, (2016) Ética como fundamento II – Pequeno tratado de ética radical, Caxias do Sul: EDUCS.
SOUZA, R. T. – RODRIGUES, U. (Orgs.). (2016) Ernst Bloch – atualidade das Utopias Concretas, Porto Alegre: Editora Fi.




* PUCRS, Porto Alegre. www.timmsouza.blogspot.com.br
[1] Experimentum mundi. Tradução minha.
[2] Pensar em não ver, p. 70.
[3] Cf. Franz Rosenzweig, Stern der Erlösung; Das Büchlein des gesunden und kranken Menschenverstandes, entre outros.
[4] A opção metodológica por essa oposição mais contrapontística que dialética entre posições de Derrida e Bloch a respeito da questão em foco não significa o renegar à subalternidade os fatos que caracterizam o acontecimento, em Derrida, e o noch-nicht em sua urgência, em Bloch, como eminentemente catastróficos, e, sim, apenas, adequá-la (a oposição) ao tom geral – exatamente contrapontístico e fugatto, do presente texto. Agradeço a Serge Margel pela observação.
[5] Pensar em não ver, p. 70.
[6] DERRIDA, J. Pensar em não ver, p. 70.
[7] DERRIDA, Pensar em não ver, p. 71. Cf. BLOCH, E. O princípio esperança, p. 23: “(...) o ainda-não-consciente no ser humano efetivamente faz parte do que-ainda-não-veio-a-ser, do ainda-não-produzido, do ainda-não-manifestado no mundo”.
[8] BLOCH, E. O princípio esperança, p. 14.
[9] BLOCH, E. O princípio esperança, p. 28. Grifo no original.
[10] BENJAMIN, W.: “Não existem, nas vozes que escutamos, ecos das vozes que emudeceram?”. Cf. SOUZA, R. T., Ética como fundamento II – Pequeno tratado de ética radical.
[11] BLOCH, E. O princípio esperança, p. 29.
[12] BLOCH, E. O princípio esperança, p. 19.
[13] O princípio esperança, p. 16.
[14] Idem, p. 15-16.
[15] Idem, p. 21.
[16] DERRIDA, J. Espectros de Marx, p. 47.
[17] DERRIDA, J. Pensar em não ver, p. 79.

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